A Pétala Desconhecida
Era
incrível o talento que Aloísio tinha para ser desagradável.
Brincadeiras de mal gosto, comentários infames, provocações
desnecessárias, olhares provocativos, e uma entonação
particularmente irônica e de cunho tão desaforado, que de efeito
imediato, fazia ebulir o sangue dos olhos de quem recebesse a sua
desafinada melodia, que mais parecia uma cantata aos berros.
Pois
é, Aloísio era mesmo uma pessoa difícil. Do mesmo jeito que com
Chaves, ninguém tinha paciência com ele. Mas Aloísio não era
criança e nem inocente. Era a típica pessoa para as quais todos
olham e dizem: Esse tem espírito de porco! Aloísio era esperto e
cheio de malícia, mas não daquela que dá realmente nojo, quando um
bagual viola o espaço de uma moça com suas cantadas que soam como
um estupro verbalizado. No que se tratava dos seus “instintos
masculinos”, Aloísio era moderado e até achava coisa de babaca
ficar latindo para as mulheres como um vira-lata no cio. Porém,
nunca perdia a oportunidade quando sentia que uma cantada iria
irritar, ofender ou até envergonhar uma garota. Mas isso não se
tratava de fogo por baixo das calças e sim de prazer em atiçar os
outros.
Mas
Aloísio era cheio de malícia. De uma outra malícia. Procurava ele
os momentos certos para dar o seu espetáculo relâmpago: aquela
frase que atinge em cheio a ferida de alguém, mas sendo aplicada em
um momento de polidez social, é relevada e até rida por quem acaba
de começar a sangrar por dentro. Aloísio era muito desagradável.
As
pessoas em geral consideravam Aloísio um perfeito idiota. Bem, ele
de fato o era. Ninguém gostava de ficar um minuto sequer em sua
companhia porque em questão de segundos ele começaria a soltar no
ar uma série de comentários infelizes. Todos que conheciam Aloísio
tinham pelos menos um motivo para não gostar dele.
A
verdade é que ninguém tinha motivo algum para amar Aloísio.
Ninguém tinha motivo para pensar nas dificuldades de Aloísio.
Ninguém sequer havia se perguntado se Aloísio chegou a chorar por
algum problema em sua vida. Todos achavam que ele só queria chamar
atenção e ficar polemizando. Para todos, o negócio de Aloísio era
causar. Todos levavam em consideração as ações e colocações
exteriores de Aloísio, mas ninguém levava em consideração a
realidade interior de Aloísio. Estavam todos muito preocupados com
aquilo que viam e ouviam, mas nenhum pouco interessados naquilo que
não se vê, que não se ouve, mas existe. Aquilo que determina tudo
que se diz e que se faz.
Mas
pra quê tudo isso? Essa preocupação com um tosco, um cara tão
desnecessário pra vida? Aloísio era babaca, já era errado estando
quieto, existindo na situação. As pessoas colhem aquilo que
plantam, não é mesmo? Que ele recebesse o troco das suas atitudes
para aprender a ser gente de verdade! Aprender a respeitar, a ser
gentil, a não ficar ofendendo os outros de graça por puro sadismo,
a ser uma pessoa agradável, suportável, porque nem isso ele era.
Aloísio
nunca tinha recebido um abraço que não fosse por obrigação ou
educação. Isso porque a regra que rege o nosso mundo é a regra da
força bruta! Ela atinge até aqueles que têm o pensamento no lugar.
Uma regra que se apresenta numa diversidade tão rica quanto a
diversidade de impressões digitais distintas neste planeta. Nesse
prisma, esperar que a vida dê o troco a Aloísio é apenas a lógica
da força bruta apresentada de forma invertida. Para seguir tal regra
não é preciso simplesmente agir, mas também deixar de agir. A
falta de atitude é tão agressiva como a presença dela. A omissão,
tão dolorosa quanto a ação.
Pra
falar bem a real, o mundo é de quem tem a razão. De quem tem razão
não tendo a razão. De quem não vê razão na falta de razão dos
outros. Essa é a lei da força bruta: agir sempre conforme a lógica
de sempre ter razão e por isso, incluir ou excluir, cuidar ou não
cuidar, respeitar ou não respeitar, ouvir ou não ouvir, dar crédito
ou descreditar, estar disposto a ou negar-se imediatamente, a tolerar
o intolerável ou intolerar o tolerável, a amar ou não amar. A
lógica de dar conforme se recebe, nunca a de dar sem receber algo em
troca.
Complicado
mesmo é abrir mão da própria razão. Mas isso ninguém quer.
Ninguém está disposto a ser “o ingênuo” que ouve os motivos de
Aloísio. A ser “o que passa a mão na cabeça” de Aloísio ao
perguntar o porquê de tal atitude. A ser “o que aplaude os erros”
de Aloísio ao dizer a todos que é preciso ter paciência com ele. A
ser o trouxa por tratar com ternura quem só sabe dar patada. Afinal,
Aloísio está mesmo errado. Mas o erro de Aloísio torna a ação
dos outros certa? A maldade maldosa de Aloísio me torna bom em minha
conformidade, em minha inércia? Eis aí a lógica de sempre ter
razão. A lógica de dar conforme se recebe, nunca a de dar sem
receber algo em troca.
Nesta
lógica a segregação é inevitável. Não se trata mais de defender
os bons costumes, a militância de inclusão, ou a abrir espaço para
o diálogo. O diálogo pode até ocorrer quando dois falam a mesma
língua partindo de pontos opostos, mas não ocorre quando a língua
é diferente. O diferente é só tolerado até certo ponto. O amor ao
próximo vai até certa medida também.
Quem
diria que os idiotas também precisam ser amados? A posse da razão
enquanto opiniões mais coerentes ou como educação, amabilidade e
respeito somente para quem também age assim acaba por nunca gerar
mudança num mundo tão conturbado. As expectativas são sempre as
piores, quando não utópicas e inalcançáveis. Assim prosseguem
porque são sempre expectativas. Expectativas. Nunca quebra de
expectativas.
Nunca
haverá mudança enquanto Aloísio não for amado. Um idiota também
tem coração de carne. Enquanto recebendo o troco da vida, existe
apenas uma disputa entre os certos contra o errado. Aquele que ofende
nunca recebe um abraço terno. A outra face nunca é oferecida. O
amor que rompe paradigmas nunca é conhecido. A bala de canhão
sobressai a pétala de rosa.
Todos
vivem suas vidas. Aloísio vive sua vida. Os anos de todos passam. Os
anos de Aloísio passam. Todos morrem. Aloísio morre. A bala de
canhão sobressai a pétala de rosa.
Pétalas
de rosa são jogadas sobre o túmulo de todos. Pétalas de rosa são
jogadas sobre o túmulo de Aloísio. Pétalas jogadas, não
cultivadas.
Jonas
P. Carvalho
Mas
eu digo a vocês que estão me ouvindo: Amem os seus inimigos, façam
o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam, orem por
aqueles que os maltratam. Se alguém bater em você numa face,
ofereça-lhe também a outra. Se alguém tirar de você a capa, não
o impeça de tirar a túnica. Dê a todo aquele que pedir, e se
alguém tirar o que pertence a você, não lhe exija que o devolva.
Como vocês querem que os outros lhes façam, façam também vocês a
eles.
Lucas
6.27-31
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMe identifiquei com com Aloísio
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