Roni em sua Ilha do Medo
Roni escrevia. Não era escritor, apenas escrevia. Escrevia não porque gostava
simplesmente, mas porque a escrita denunciava e jogava para fora tudo que era
necessário, segundo ele, ser extravasado. Era jovem a ponto de pular de paraquedas e
velho demais para grandes baladas, bebidas, farras e ressacas de segunda-feira. Roni
morria de preguiça das pessoas; não de todas, mas da grande maioria. Dizia que eram
fúteis demais, egoístas demais, irresponsáveis demais para consigo mesmas. Em
síntese, Roni adorava a solitude da vida e as suas mãos, uma vez que delas saía o
desabafo em forma de tecladas ou de outro modo qualquer.
Roni escrevia para tentar entender a si mesmo. Por mais que tivesse preguiça
das pessoas, tinha profunda compaixão por elas já que as via fugindo do encontro
inevitável com o “eu” insuportável. Infelizmente Roni sentia compaixão, só sentia,
nada mais. Roni tinha preguiça das pessoas. Por isso escrevia; para olhar nos olhos da
sua alma e tentar decifrar os vícios de seu caráter. Toda tentativa resultava num parto,
mas num parto natural: doía, doía, doía, doía mais um pouco até que em determinado
momento de alívio era possível contemplar a beleza da ensanguentada conclusão a
qual dera a luz. Pronto, Roni acabara de desvendar mais um mistério do seu ser.
Por consequência dos inúmeros partos, Roni achava-se sábio, não dono da razão,
mas pelo menos um pouco acima da média; acima das pessoas das quais tinha
preguiça. Por ironia, em determinada circunstância de sua vida, começou a chamar as
pessoas de preguiçosas, isso porque, segundo ele, eram conformadas e resumiam suas
vidas a coisas pobres. Roni tinha preguiça das pessoas.
Roni pensava ser revolucionário e colocava no papel toda a sua insatisfação com
as atitudes humanas, com o sistema falido, e claro, consigo mesmo. Roni tinha muitas
ideias, sentimentos de inconformidade e revolta com tudo o que havia de errado,
ideais que deveriam ser gritados aos quatro cantos da terra. Mas ninguém ouviria
porque, segundo ele, ninguém tinha a “pegada” para gerar mudança. Por isso, Roni
continuava a ter preguiça das pessoas.
Roni escrevia porque não tinha com quem contar. Pensava ele que indivíduo
algum o compreenderia e seria capaz de aconselhá-lo sem frases de conhecimento
comum que, segundo ele, não colaborariam em nada para as suas difíceis questões
existenciais que exigem o mínimo de sensibilidade filosófica, literária, artística e
humana que as pessoas hoje em dia não têm. Roni tinha preguiça das pessoas. Roni
não investia em relacionamentos.
Roni escrevia porque também gostava de ler. Roni amava seus manuscritos e sua
biblioteca, a qual era riquíssima em conteúdo. Entre seus preferidos estavam Clarice,
Schopenhauer e Nietzsche. As questões existenciais o acompanhavam quase que a
toda hora. Roni adorava um momento deprê e dizia que momentos assim o ensinariam
a valorizar as coisas simples da vida. Era fã da simplicidade, mas vivia esperando por
um instante extraordinário.
Roni acompanhava redes sociais e sabia que as pessoas mostravam aquilo que
não eram, ostentavam aquilo que não tinham e que suas vidas não eram tão perfeitas
quanto pareciam. Roni tinha preguiça das pessoas. Roni queria desvendar as pessoas.
Mas Roni escrevia porque precisava escrever.
Roni escrevia porque no fundo sabia que era miserável. Tinha plena convicção de
quem ele era e que a miséria de Jean Valjean jamais comparar-se- ia com a sua.
Roni escrevia porque era mentiroso. A quem estava ele tentando enganar? Roni
tinha preguiça das pessoas e se afogava em seu mundinho, não cor de rosa, mas
negro, escuro e vazio.
Roni escrevia porque enxergava a própria ignorância e a queria esconder.
Buscava ele ser autossuficiente sabendo que o homem é um animal social. Buscava
felicidade nas coisas profundas sabendo que toda felicidade é clandestina. Pensava
estar transvalorando valores consciente da sua alienação. Era fã de Sócrates mas
acreditava saber. Adorava cultura e só a sua. Era contra o sistema só que nunca
parafraseou em voz audível “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”. Dizia entender
o amor de Clarice, sua diva, mas persistia em continuar amando. Assim como todo
mundo, Roni pensava em mudar a humanidade mas nunca pensava em mudar a si
mesmo.
Roni se maquiava para si mesmo. Roni era caricato e patético. Escondia-se
debaixo da saia da insensibilidade. Insensibilidade para com aquilo que era preciso ser
sensível. Roni parecia um palhaço em um show de horrores, mas ninguém via; o show
era particular e só tinha um assento.
Roni sabia que suas revoltas mais pareciam tragédias naturais trazendo somente
destruição e que morriam em si mesmas. Sabia que sua escrita era para tentar aliviar a
azia de ser inerte e tão pobre quanto as pessoas preguiçosas a seu olhar.
Roni escrevia porque não era um verdadeiro inconformado.
Roni, na verdade, nunca realizou um só parto, somente abortos. A cada escrita
abortava um pedaço da vontade divina de tirar a sua máscara. Roni se perdia adiando
o dia do único parto necessário e verdadeiro. De tantos abortos, Roni se transformara
numa meretriz pomposa, que se vende por um prato cheio de ilusões. Ilusões
palpáveis. Ilusões que são livros, lágrimas, notas menores de um velho violão velho e
dores de existir traduzidas com uma caneta e um papel.
Roni, na realidade, tinha preguiça das pessoas porque não suportava a si mesmo.
Tinha preguiça porque sabia que elas, em suas idiotas formas de pensar e viver, eram
mais sinceras que ele. Roni sabia que o verdadeiro idiota era ele. Roni era o real
egoísta, o fútil, o irresponsável consigo mesmo.
E se não bastasse, Roni ria de si. Com isso, sentia-se sádico rindo da própria dor,
um masoquista. Sentia-se como alguém com distúrbios mentais, sentindo prazer no
horror e prestes a cometer crimes atrás de crimes. Mas ele já os havia cometido:
os abortos. Há crime maior que este? Roni era só mais um.
Roni era só mais um preguiçoso.
Roni sabia que era preciso cessar com os abortos. Roni queria parar com os
abortos. Reconhecia a verdadeira fragilidade da sua alma. Roni amava escrever. Roni
tinha preguiça das pessoas. Roni tinha preguiça de si. Roni tinha, fazia, amava,
pensava, lia, falava e escrevia. Roni escrevia.
Roni negava, protelava o encontro, mas sabia que necessitava do Eterno, que
não é passageiro. De um encontro. De um reencontro. De uma rotina de encontros.
Encontros plenos e reveladores. Encontros que são de e por graça. Encontros que
tiram toda a preguiça, das pessoas e de si e no lugar coloca um negócio bom. Bom para
o outro. Bom para si. Bom para dar à luz.
Roni teve o encontro.
Roni deu à luz.
Roni conheceu o amor pela escrita.
Roni agora sabe que apenas escrevia. Escrevia como escravo. Agora Roni
escreve! Escreve livre!
Jonas P. Carvalho
Gostei!
ResponderExcluirShow!
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